sábado, 20 de setembro de 2008

Relatos de uma doméstica, em partes.

Sou Cyrlene, trabalho em uma casa de uma família de classe média-alta. Tenho o segundo grau completo, acabei de ser aprovada no curso de Direito em uma dessas universidades que estão em expansão e precisam de alunos pra aumentar o sonho de crescimento dos reitores com a arrecadação.
Meu patrão é ótimo, viaja muito e é um senhor muito culto. Empresta livros e sempre que vai à Europa me traz algo culto pra ler ou ouvir, pois eu fiz um curso básico e avançado de Inglês em um programa gratuito do município em que vivo.
Sempre que estou só na casa da família, estou com meu iPod ouvindo The White Stripes, U2, Madonna entre outros nomes da música pop. De vez em quando ouço Bethoven, Strauss, Rossini, Bach, tenho que confessar, pois aprendi a gostar desses quando essa família renovou seu acervo da estante para os novos “hits” do momento como “senta que é de menta” e “chupa que é de uva”, se não me falha a memória. Acredita que iam jogar a coleção toda de Vivaldi? Amei as quatro estações... Mas que gosto estranho o deles, ouvir algo que não tem sentido, não há musicalidade e nem poesia. Ah, adoro poesias, adoro versos...Drumond que o diga, o meu exemplar já está um lixo de tanto que reli.
Minha querida “patroa” é exemplo do que não se deve seguir, vive dizendo: “pois você tem é que casar com homem rico, que te sustente...” Nem comento o resto.
Sabe os filhos do casal? Do tipo que se faz de tudo pra eles e os mesmos sempre fazem NADA por eles mesmos? Vivem que nem a senhora sua mãe: vida de dondoca. Que educação, que lição de vida, que fim levarão as crianças? Que são lindas por sinal. Um deles bebe e já visitou os leitos de todos os hospitais, hora por acidente automobilístico, hora pra levar apenas picadas de glicose pra voltar à realidade que não quer viver. Pobre coitado! Já a filha é imagem e semelhança da mãe: namora um garotão bem mais velho que a ostenta com presentes fúteis e caríssimos. Riquíssimo ele, e sem conteúdo, pois pelo que vejo só faz e fala bobagens e gastou uma considerável fortuna em um sistema de som pra o carro, só para os vizinhos ouvirem o quanto ele é medíocre. Que coisa mais “sem noção”, dizem meus colegas do curso de Secretariado Bilíngue que vou às terças.
Vivo tudo isso de olhos bem abertos, pois um belo dia faleceu o chefe da casa! Pobres coitados, toda a fortuna foi para um homem na Holanda, com meu quem meu patrão tinha relacionamento de década. A filha está desorientada (mais ainda), pois sua grande paixão a traía com sua mãe, que hoje vive com ele e não dá a mínima para o que ela pensa disso. O filho mais velho? Está tentando arrumar emprego de empacotador num supermercado próximo onde moram, pois o salário não paga nem o transporte, que antes era de luxo, agora se resume em um coletivo.
Onde estou nessa? Nas horas vagas faço alguns relatos de uma vida que mudará, pois eu digo: alimente-se do medo, pra um dia criar coragem e ir lá e fazer acontecer. Mas não deixe o medo de ser “dono de seu nariz” criar coragem pra te dominar e fazer acontecer com você.
Volto, mas com outra história pra você. Até mais ver!